terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Zen Blues No Blues


onde
não é um lugar
é qualquer lugar
que não aqui
em qualquer momento
que não agora

where
is not a place
it’s anywhere
but here
any time
but now



...e de que cor são teus blues?


...and what color are your blues?

.

somos, sois, são

.

únicos. . . . . . . . . . . . .
e, ao mesmo tempo,
. . . . . . . . . . .
.tantos

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Smile



um sorriso . . . . . . . . . em rosto alheio

. . . só existe . . . . . . estampando-se
. . . . de verdade . . .quando contagia
. . . . . . . . por inteiro

.(para Charlie Chaplin)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A Limpo

.
O que passou,
passou...
já não é.

Ao mesmo tempo
nunca deixa
de ter sido.

Sempre presente
e sempre
reescrito.
.

t.o.d.o . p.r.e.t.é.r.i.t.o . é . i.m.p.e.r.f.e.i.t.o

.

Somos nós
. . . . . . . . . . . .que, dia a dia,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . passamos.

.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Pode?

A palavra oxítona
é esdrúxula.

.

sábado, 1 de dezembro de 2007

que ar te...? - interativo

.

Começou assim:

.

embolia

que ar
te pega
na veia?

.

.

atmosfera

que ar
te alenta
a vida?

.



.

ar puro

que ar
te faz
feliz?

.

.

aragem

que ar
te toca
as faces?

.


Agora é com o leitor!
Que tal usar os diferentes pedaços (ou criar novos) e formar novas combinações?

.

que ar

te

pega

alenta

toca

faz

____

feliz

na veia

a vida

as faces

____

?

!

...

.

.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

tentativa de haicai (4)


três garças brancas -
no arrozal alagado
são seis garças brancas

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Continuum

entre a memória
e o horizonte
todo tempo é hoje

.

daqui à manhã


Qualquer corrente é tão forte
quanto seu elo mais fraco.
O que dirá o futuro
quando eu já for passado?

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

da ré à ação

.
re . . . . . . re
.evolução .   . .vela
devolução . . . . . ação
devo__ção . + .re__lação ---> re_ação
.|. . . . . . . . . | . . . . . . .|

DE. . . . . . . . .LA . . . . . . ÇÃO
.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Festa de São João

(2001)

. . . . . . Toninho comia com pressa, não queria se atrasar de jeito nenhum. Tinha esperado a semana toda por este dia. A festa de São João seria o momento em que poderia finalmente conquistar a menina mais linda da escola, pelo menos na sua suspeita opinião. Tinha quinze anos, completos havia poucas semanas. Magro, em sua aparência desengonçada era o típico adolescente que crescera muito em pouco tempo. Suzana, a "menina mais bonita", tinha dezessete anos, e estava no último ano, dois anos a frente dele. Gostava dela havia muito tempo, este gostar contemplativo, de que só somos capazes na adolescência. Gostava de longe. Em seus sonhos, imaginava que ela também gostava dele, sonhava que namoravam, que iam passear, e que ele a salvaria nos momentos de grande perigo. Ela tinha cabelos pretos, lisos, a pele morena, era um pouco mais alta que ele, com o corpo desenvolvido de menina que virou mulher, e um sorriso que o deixava sem fôlego. Não que ele nunca tivesse namorado. Tinha tido duas namoradas, e com uma já tinha chegado tão perto do sexo quanto é possível, sem, contudo, “chegar lá”. Mas nunca tinha sentido reciprocidade, aquela paixão que se sente e se vê também nos olhos do outro. Suzana era muito diferente destas outras garotas. Estava tão apaixonado que imaginava tocá-la como uma forma de profanação. Não que não quisesse, claro que queria! Mas tinha sentimentos conflitantes a respeito. Lembrou da segunda-feira anterior, quando tinha finalmente conseguido juntar coragem e falar com ela. Na verdade, enquanto ele estava pensando como iniciaria uma conversa, ela tinha parado e lhe perguntado as horas. Apesar de nervoso, ele achara um jeito de conversar um pouquinho, e até descobrir que ela iria na festa de São João na sexta-feira seguinte.

. . . . . . A festa tinha começado às quatro da tarde, com apresentações dos alunos do primário, mas a parte que interessava mesmo seria mais tarde, o baile de São João. Já tinha ido à escola, assistido à apresentação de quadrilha da irmã menor e até se divertido com o irmão mais novo, num torneio de brincadeiras típicas. Mas sua expectativa era muito grande, e não conseguia se concentrar direito em nada. Já tinha se arrumado para a festa. Seu cabelo castanho estava lambido e repartido tão reto que parecia riscado à régua. Tinha quase um vidro inteiro de gel no cabelo. Vestia calças de brim, com alguns remendos de mentirinha, camisa xadrez, botinas e trazia um chapéu de palha, que não punha na cabeça para não estragar o cabelo. Desta vez, tinha se recusado a simular um bigode com o lápis de sobrancelhas da mãe.

. . . . . . É claro que ninguém sabia de sua paixão. Nem mesmo seus amigos mais próximos. Suava frio só de imaginar a zombaria que teria que agüentar, caso alguém descobrisse antes de dar certo (tinha certeza que ia dar certo). O fato é que, sob pressão, metade dos seus colegas acabaria admitindo que também sonhava com a tal garota. A outra metade não admitiria, mas também sonhava ou já tinha sonhado. Em casa, só o irmão desconfiava da existência de uma musa inspiradora para os suspiros que Toninho soltava de vez em quando, mas não fazia idéia de quem seria. Agora, a mãe estava sorridente, com uma expressão matreira, imaginando o motivo de tanta preocupação com uma festinha na escola. Nunca tinha visto o filho com tanta preocupação em combinar as roupas, pedindo para passar perfume: "Só um pouquinho, mãe." Principalmente, notava que ele estava ansioso, o que não era comum.

. . . . . . Terminou o lanche em um tempo que lhe garantiria uma medalha nas olimpíadas, se existisse a modalidade. Esperou o "tempo mínimo regulamentar" para não chamar atenção para sua a pressa, e já ia se preparando para sair, quando o pai chegou.

. . . . . . - Oi, Toninho, como foi o seu dia? Tudo bem?

. . . . . . Não estava preparado para estas conversas domésticas. Agora ia demorar mais a sair. Tentou responder rápido, despistar o pai e sair. Não conseguiu.

. . . . . . - Sabe, filho, eu queria conversar um pouquinho com você, não vai demorar nada, e depois eu te levo para a festa, de carro.

. . . . . . Sentiu um frio na barriga. "O que será que fiz?" Quando o pai pedia assim, para conversar com ele, já podia imaginar... Depois pensou que já tinha "planos," e não podia ir com o pai. Tinha até inventado uma desculpa para não ir com os amigos, que iam passar em frente à sua casa. Bom, como não tinha mais jeito de escapar, acatou o convite, pensando que devia ter saído mais cedo. Agora, era tentar abreviar a conversa.

. . . . . . - Olha, meu filho, você já fez quinze anos... - o tom de voz do pai era sério, solene. Toninho ficou ouvindo, calado. Tinha péssimos presságios. - ...já é quase um homem. Eu e sua mãe achamos que já é hora de assumir certas responsabilidades... - Pânico. "Vão me proibir de sair. Não, Deus, tudo menos isto!" o pai prosseguia - então, hoje, trouxe uma coisa para você. Mas, antes, tenho que te pedir uma coisa. Você ainda tem algum daquele dinheiro do lanche que eu dei anteontem?

. . . . . . - Tenho um pouco, sim, pai... - "Que papo estranho..." pensou, "Será que ele pensa que eu ando gastando demais? Mas eu nem gasto muito..."

. . . . . . - Deixa eu ver - o pai estava pensativo - me empresta vinte centavos?

. . . . . . - Claro pai, deixa ver se eu tenho trocado... - Era realmente uma novidade, isso. Nunca tinha acontecido de o pai pedir dinheiro a ele. Menos ainda quando o tinha chamado para "uma conversa".- Olha, pai, só tenho cinqüenta centavos, serve?

. . . . . . - Serve, sim - disse o pai pegando a moeda - Não vai te fazer falta, ?

. . . . . . - Não, pai, eu ainda tenho a metade. - "Pelo menos consegui dizer que não gastei todo o dinheiro, quando começa este papo de 'responsabilidade', é sempre melhor a gente estar numa posição de defesa."

. . . . . . O pai abriu a pasta de trabalho e tirou um pequeno embrulho. Estendeu-o ao filho, que estava visivelmente confuso.

. . . . . . - O que é, pai?

. . . . . . - Porque você não abre e olha? - Tinha agora uma expressão divertida, imaginou que o filho estivesse esperando uma bronca, e ria por dentro, para não estragar a surpresa.

. . . . . . No pacote havia uma caixinha, com um canivete suíço pequeno, preso à corrente de um chaveiro, com duas chaves. Por um momento, Toninho esqueceu toda a pressa.

. . . . . . - É para mim? Que legal! Obrigado, pai! Que legal!! - examinou o chaveiro, abriu o canivetinho, e só então, lembrou de perguntar - mas, que chaves são estas?

. . . . . . - Pois então - disse o pai, sorrindo - são as chaves de casa. Sua mãe e eu achamos que você já é grande o suficiente para ter as chaves de casa.

. . . . . . Ele foi até o pai e o abraçou, orgulhoso de si mesmo.

. . . . . . - A propósito, filho, o canivetinho não é presente, não - disse o pai, mostrando a moedinha com um sorriso - você acaba de comprá-lo de mim por cinqüenta centavos

. . . . . . - Ah, é? Por que, pai?

. . . . . . - Existe uma superstição antiga que diz que nunca se dá instrumentos de corte de presente, sabia? Dizem que "corta a amizade". Por isso eu não dei o canivete, mas vendi. - O pai deu uma risadinha - Não quero correr o risco de cortar a nossa amizade, ?

. . . . . . - Puxa, pai, eu achei que ia levar uma bronca... - a voz meio presa traía a emoção do menino.

. . . . . . O pai riu.

. . . . . . - Algum motivo especial par você levar uma bronca hoje?

. . . . . . - Não, pai! Nenhum! Nenhunzinho mesmo! Mas a gente nunca sabe, ?

. . . . . . Os dois saíram da sala, rindo. O pai falou:

. . . . . . - Bom, meu filho, agora, aquela carona para a escola, acho que você está com pressa...

. . . . . . A confiança veio na hora certa. Antes, talvez não tivesse tido jeito de escapar da carona, com medo de magoar o pai. Mas agora...

. . . . . . - Olha, pai, não precisa. É pertinho. - Antes que o pai insistisse, acrescentou, em voz baixa, com um tom conspirador - E... é que... bom, quero fazer uma coisa antes de chegar à escola, sabe? Tem uma menina... Você entende, , pai?

. . . . . . Ele entendeu. Após beijar a mãe e agradecer o presente, Toninho saiu muito contente, a caminho da festa.

. . . . . . A escola ficava a uns cinco quarteirões. Toninho se desviou um pouco do caminho para passar em frente a uma casa que tinha umas roseiras enormes. Havia tantas rosas naquele jardim, que a calçada em frente à casa cheirava a rosas. O Sol tinha recém se posto. A luz do crepúsculo confundia a vista. Toninho escolheu uma rosa grande, cor-de-rosa mesmo, puxou-a para fora da cerca e começou a torcer a haste para quebrá-la. Enfiou um espinho no dedo, onde saiu uma gotinha de sangue. Era um ramo duro e só quando já estava para desistir ele lembrou do canivetinho novo no bolso. Em um instante estava caminhando pela rua com a rosa numa mão e o indicador da outra na boca.

. . . . . . Ao chegar à escola, um outro problema. "E se alguém me vê com esta flor na mão?" Tentou carregar a flor de modo discreto, casual, e até teve sorte, pois logo avistou Suzana conversando com um sujeito que já tinha visto por ali. Devia ser professor. Ficou observando, da entrada da escola, a timidez não o deixava ir até lá e entregar a rosa assim, na frente de todo mundo. "Melhor esperar e pegá-la quando estiver sozinha." Era um menino sensato. Ela estava linda com os cabelos em duas tranças que lhe desciam dos ombros. Vestia uma camisa xadrez com um nó na cintura, uma calça de brim apertadíssima e botas com salto alto.

. . . . . . A música começou a tocar e o casal foi dançar. Alguns minutos depois, iam saindo quando Suzana viu Toninho.

. . . . . . - Oi, Toninho, tudo legal? Olha, estamos saindo, temos ainda outra festa... Divirta-se, hein?

. . . . . . Deu dois beijinhos nas bochechas dele e se foi antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Ele a viu ainda entrar num carro, trocar um beijo rápido com o professor (agora ele lembrava, era o professor de português do último ano). Logo depois, o carro arrancou.

. . . . . . O menino, a estas alturas, estava arrasado. Tinha os olhos úmidos, e sentia-se absolutamente miserável. Entrou na festa, o olhar fixo à frente, parecia um robô, um robô velho e desanimado. Nem notava as pessoas ao redor. Logo parou e ficou olhando a fogueira no meio do arraial improvisado.

. . . . . . - Oi, Toninho! Ei! acordado? Oi!!

. . . . . . - Ãhn...?? O quê?! Ah, oi, Luciana, tudo legal?

. . . . . . - Tudo.

. . . . . . Se tivesse prestado atenção, Toninho teria notado que ela também não estava muito animada.

. . . . . . Luciana era sua colega de turma. Morava na mesma rua que ele, um quarteirão adiante. Um ano mais moça que ele, ela era sardenta, tinha olhos castanhos e cabelos muito vermelhos. Os colegas costumavam se referir a ela, na sua ausência, naturalmente, como "dentuça-quatro-olhos." Era muito quieta, uma da melhores alunas da classe, o que não contribuía muito para sua popularidade. Estava com um vestidinho rodado, os cabelos presos dos lados da cabeça, em duas marias-chiquinhas.

. . . . . . Após um esforço consciente para "aterrissar", Toninho olhou bem para ela e perguntou:

. . . . . . - , cadê seus óculos? - Não entendia como ela podia estar sem os óculos, nunca a tinha visto assim.

. . . . . . Ela sorriu, mostrando o aparelho ortodôntico, que Toninho também nunca tinha notado.

. . . . . . - Ganhei estas lentes de contato esta semana. Estava usando em casa, até acostumar, resolvi estreá-las na festa. Que tal?

. . . . . . - Legal - disse ele meio desinteressado. Mas depois prestou atenção e, até que ela tinha ficado bonita, assim, sem óculos... Mas não teve coragem de perguntar se o aparelho também era novo. - ficou legal mesmo. Diferente, ?

. . . . . . - Pois é, eu gostei, já estava cansada de ser chamada de "dentuça-quatro-olhos" pelas costas. Eu sei que os meninos... alguns meninos, me chamam assim. Agora, estou usando aparelho também.

. . . . . . Toninho ficou vermelho. Olhou para o chão como se tivesse perdido algo. Pelo menos ficou sabendo que o aparelho era, de fato, outra novidade. Ia falar qualquer coisa para disfarçar, mas não foi preciso.

. . . . . . - É claro que eu sei que você nunca falaria coisas assim. Não um menino que vem para a festa de São João com uma rosa na mão. Para quem é, posso perguntar? - Seu sorriso "metálico" era maroto e simpático.

. . . . . . - Puxa... - "que enrascada!" - é para... quero dizer, na verdade, eu trouxe para a menina que dançasse comigo a primeira dança... - "Impossível, isto nunca vai colar!" pensou.

. . . . . . - Que lindo!! E você já dançou com alguém?

. . . . . . "Colou?! Incrível!!"

. . . . . . - Não... cheguei agora mesmo. Vamos dançar? - "Bom mesmo eu me livrar desta rosa."

. . . . . . Ela fez que sim com a cabeça e foram para o meio do pátio.

. . . . . . Do outro lado do pátio, Toninho viu o Beto, o Juca, e o Cabeça, gesticulando para ele. Acenou para eles com um gesto, rápido, dizendo que iria depois.

. . . . . . Ao fim da dança, ele entregou a rosa para Luciana, e foram tomar um quentão.

. . . . . . Ficaram dançando e conversando até perto das dez horas. Ela insistiu que ele devia ter um "bigode" de caipira. Tanto insistiu até que o convenceu, e ela fez o bigode e umas costeletas nele, com um toquinho de lápis de sobrancelha. Toninho não foi encontrar os amigos. Sabia que ia ter zombaria no dia seguinte, mas não se importava. Aos poucos, foi se distanciando de sua mágoa, enfim nem pensava mais em Suzana, tão animada estavam a festa e a conversa. Descobriu que Luciana, apesar de falar pouco na escola, tinha um conversa bastante divertida. Fazia anos que não falava muito com ela, desde o tempo em que brincavam junto com o resto da molecada da rua. Ela também se surpreendeu quando ele contou a história do canivetinho, e da rosa roubada, que ele, é claro, adaptou para a sua desculpa de trazer uma flor para a primeira dança.

. . . . . . - Mas o dono das roseiras não te viu? Dizem que ele é meio louco...

. . . . . . - Não viu não. Eu fui rápido.

. . . . . . A festa já estava acabando, e Luciana disse que tinha que ir para casa.

. . . . . . - Já está ficando tarde, eu acho que as meninas já foram. - "As meninas" eram as amigas com quem tinha vindo - a gente fica assim, conversando, e esquece da hora...

. . . . . . - Pois é... Acho que eu também já vou. Posso te levar?

. . . . . . - Você veio de bicicleta?

. . . . . . - Não, a pé mesmo.

. . . . . . - Ah, bom... - ela riu - ... Vamos, então?

. . . . . . Caminharam juntos. Em algum momento, descobriram que estavam de mãos dadas, mas nenhum dos dois tocou no assunto, e assim continuaram, até chegar à casa dela. Despediram-se no portão. Três beijinhos, uma despedida rápida, e os dois ficaram se olhando nos olhos, meio sem jeito. Toninho disse, depois de algum tempo:

. . . . . . - Olha, eu estava precisando estudar trigonometria esta semana... Você não quer estudar comigo?

. . . . . . - Pode ser. A gente combina. Obrigada pela rosa. Foi muito legal, a festa. - Ela se aproximou e deu um beijo rápido nos lábios dele. - Boa noite. - Outro beijo, um pouco menos rápido e ela já estava dentro do pátio, quase na porta da casa.

. . . . . . Toninho foi pego de surpresa, e nem teve tempo de reagir, ou de dizer nada. Quando ela parou em frente à porta e se virou para ele, tudo o que ele conseguiu dizer foi:

. . . . . . - Boa noite. Tchau...

. . . . . . Ela entrou e ele começou a caminhar para casa. De repente se viu cantarolando, contente, sem saber bem por quê. Chegou em casa alegre, seus pais se olharam e sorriram. Sim, eles sabiam como era. Quando foi dormir, nem lembrava mais de Suzana. Tinha um canivete suíço, as chaves de casa... e uma namorada.

***

sábado, 17 de novembro de 2007

medo da chuva

(2002)

. . . . . Procurou um canto escuro e acomodou-se como pode entre a parede do barraco e uma pilha de caixas de papel. A cada estrondo, encolhia o corpo miúdo contra o canto, como se quisesse entrar na parede. Apertava as mãos contra os ouvidos, mas não conseguia deixar de ouvir. O coração descontrolado e os ruídos da tempestade formavam uma sinfonia de pesadelo. Sabia que ia morrer.

. . . . . Sentiu uma presença trêmula ao lado. Devagar, abriu um olho, depois o outro. Percebeu, mais do que viu, um pequeno vulto peludo apertado contra sua perna. Custou a firmar a vista borrada pelas lágrimas. Pepita também tinha medo. Tocou de leve o pelo molhado da cachorrinha. Ofegando, trêmula aconchegou-se ainda mais contra ele. Chorava baixinho, um ganido fino que mal se ouvia entre os rugidos da tempestade. Lambeu a sua mão e tentou subir no colo dele, depois desistiu e ficou deitada, como que à morte. Chamou-a, baixinho. Ela não se mexeu. Aninhou a cadelinha como pode, no canto forrado com restos de papel e pano.

. . . . . A respiração da cadela ficava cada vez mais pesada. O menino acariciou o pêlo ralo por muito, muito tempo. Enfim, com um longo ganido ela se contorceu um pouco. Logo depois, começou a lamber uma massa escura e gosmenta. Sentiu nojo. A massa escura se mexeu. Curioso, divisou quatro patinhas e um rabo. Depois vieram outras bolinhas peludas, que logo estavam mamando nas tetas da mãe. Nem percebeu quando a tempestade passou. Não tinha mais medo da chuva. Pelo menos até a próxima vez.


tentativa de haicai (3)


Noite de São João
Só o velho cachorro surdo
Não se esconde
(mai.2005)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

o cão, o cego e o caminho

.
Um cão segue
seu dono cego
que segue seu cão.

Assim se bastam
cada um a caminhar
e a seguir o outro.

O caminho que surge
a cada passo
sabe ser trilhado.
q u e m . p a s s a
t a m b é m
. é . c a m i n h o
.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

vice-verso

.
e, no espelho,
. . . . . . . . . . . . . este que me fita
é mero reflexo?
ou sou eu
. . . . . . . . . . quem o imita?
.

outro

.
outro é quem
me define
nomeia
dá existência

outro delimita
estas bordas
e assim
cria a si mesmo
.

sou apenas como sou

.
o que . . . . . é do outro
. . . . . . não
deve . . . . . . . . . . ser meu
. . . . . . ou não
. . . . . . . . ?
.

Sem-bjetividade

.
sujeito simples
em oração subordinada

busc'causa
ruptura do verbo

deslimita
sujeito e objeto:

sujeitobjeto:

suj'bjeto:

subjeto.

sujeito
ora indefinido
_

a...?


em toda oração
o sujeito busca
um verbo de ligação

sábado, 10 de novembro de 2007

after Leminski

.
do jeito que tudo vai
quando chegar a ser
nem vai ser mais

***

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

vã filosofia


Para pensar em vão:
Quantas zebrinhas
vale um leão?



segunda-feira, 5 de novembro de 2007

...


de tão distraído,
só percebi na volta
que não tinha ido.

domingo, 4 de novembro de 2007

Pagou?


Devia até a alma:
- Finalmente em dia! -
Brada.
.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

A casa do avô

.
Tudo sempre muito limpo
mas nunca tanto
que apagasse o tempo

.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Velharias I

.
again and again, and again...

left without words we stand
on the edge of the horizon
watching the sunset
and dreaming of words never spoken.

***

de novo, de novo e de novo...

sem palavras, ficamos
na beira do horizonte
olhando o por-do-sol
e sonhando com palavras nunca ditas.
(29.ago.2000)
***

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

pedrinha n'água

(um quase-poema, interrompido pela razão e seu péssimo hábito de ficar discutindo, questionando, tentando entender tudo, sistematizar, prever, explicar...)


uma pedrinha n'água
produz ondas
concêntricas
centrífugas
perfeitamente circulares

estas ondas se expandem
outras nascem
do centro exato do círculo
o espaço do oceano
parece mesmo ilimitado

quantas ondas cabem no mar?
e quantas pessoas
cabem no mundo?
e o que acontece quando
não cabem mais?

será que um dia
(no final dos tempos?)
todas as ondas
voltando ao centro
devolverão todas as pedras?

será que o tempo tem um final?

Fico pensando que, no final, o tempo pode se rebobinar, como uma fita de vídeo, lentamente (pois o tempo não há de ter pressa) as coisas todas desacontecendo.

E depois, na re-volta, reacontecendo... (da mesma forma??)

uma onda de tempo
indo e vindo
um meta-tempo
tempo além do tempo

De algum lugar uma resposta: "E quem disse que não é agora que as coisas desacontecem? quem disse que as pedrinhas não caíram do mar para cá e agora estão voltando para o lugar de onde vieram?"

Ora, ora... (respondo, com um certo enfado) se estivessem voltando, as ondas correriam PARA DENTRO, para empurrar as pedrinhas de volta! Não correriam para fora, não é?

"Será?"

Mas não é evidente?
(Tento ser didático, às vezes é preciso explicar.)
Para expulsar a pedra, a água teria que empurrá-la, num movimento de fora para dentro, portanto as ondas teriam que mostrar um movimento correspondente, de fora pra dentro, cen-trí-pe-to.

(Na sensação arrogante de triunfo, mal percebo o golpe de misericórdia se aproximando.)

"...e que tipo de onda aparece quando se TIRA uma pedra da água?"

*CLICK*

***

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

tentativa de haicai (2)


entre as nuvens
que regam o jardim
um broto de sol

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

metal na madeira

.
há algo de chumbo
neste entardecer de primavera
que o outono invade


****

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

a onda do nada

..................


....................................a onda
................................do nada
.......................a dona
...................da onda
..........a onda
......domada

.....o nada
sem dono

...........seu nada
.............sem sono
..........................sem onda
............................nem nada
.............................................a onda do nada
.....................................................................não é nada
........................................................................................é só onda

e este nada me ronda


***

domingo, 9 de setembro de 2007

tentativa de haicai (1)

na manhã tranquila

flores sobre o asfalto

ipê amarelo


quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Peso Vivo


a noite cai
sobre estas asas
já pesadas
de crepúsculos

sou homem
não sou pássaro
e tenho medo
do por do sol.
.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

___

aos olhos cansados

de tanto querer ver

lembrança

e esperança

já não bastam

segunda-feira, 28 de maio de 2007

O sangue nos jornais


. As fileiras de barracos são separadas por vielas muito estreitas . Num canto há um volume coberto com papéis presos por pedras e um sapato. Algumas pessoas começam uma aglomeração que a polícia, em vão, tenta dispersar.


corpo sem nome
o jornal de ontem
cobre a notícia de amanhã

. O vento frio da manhã agita as pontas do papel. Na viatura um soldado ouve mais ou menos atentamente enquanto no rádio, entre soluços e chiados, soam as mensagens da corporação. O outro soldado, em pé ao lado da viatura, parece uma estátua. O tempo parou por um momento: nada se move, nada se ouve. O vento traz de volta o movimento e os sons.

aurora cinzenta
o vento traz
um novo dia

. O cordão de isolamento recém instalado já é pouco para manter as pessoas à distância. Tem-se a impressão de que todos que passam, param por um instante. Dos que ficam, a maioria são mulheres. Algumas trazem bebês no colo, algumas vêm cercadas de crianças de vários tamanhos. Qualquer rajada de vento aumenta a expectativa de que o papel voe e algo se possa ver do que está embaixo.

na manhã fria
a caminho do serviço
a breve atração

. De um lado, o jornal se tinge de sangue, que escorre vários metros viela abaixo. E segue descendo, escuro, viscoso, fazendo desenhos incompreensíveis no chão. Agora já há um círculo bem definido de pessoas ao redor. Por onde o sangue escorre, dá-se passagem. Crianças andam e brincam por toda parte. Algumas, é inevitável, sujam os pés na lama, mistura de sangue com o barro do chão. Também, ninguém nota ou parece estranhar.

represa rompida
não é para o mar
que este rio corre

. Chegando a perícia, a expectativa cresce. A polícia pede à multidão que se afaste. Um soldado pede às pessoas que levem suas crianças para casa. O círculo recua talvez um metro e pára. Aos poucos vai voltando à posição original, como se houvesse uma pressão, uma mola, que o puxasse. Alguns curiosos mais ousados se aproximam e voltam, numa onda muito lenta de movimento.

nada mais a fazer
senão se distrair
com a tragédia alheia

“... sabe quando a gente joga uma pedra na água e aparecem aquelas ondas, aqueles círculos correndo pra fora?
É como se fosse o contrário: aos poucos, o círculo se fecha...”

será este o assunto
nas mesas, nos bares?
“meninos, eu vi”

. Os policiais afastam um pouco a multidão, a cada vez que a roda se fecha. O corpo é descoberto: está numa posição estranha, não parece natural. Era jovem, tinha o cabelo muito curto, bermudas, camiseta, chinelos “de dedo”. O rosto está apoiado no chão, o boné ao lado. Foram vários tiros, três na cabeça. Alguns dos presentes o conhecem: “morava logo ali embaixo”, mas ninguém ouviu nada.

para sobreviver
é preciso aprender
a não saber nada

. O corpo é despido, virado, examinado, recolhido. A multidão fascinada assiste a tudo. O rabecão leva o cadáver. A multidão se dispersa. A perícia e os policiais militares também se vão. Sobram, no chão, alguns papéis sobre a mancha de sangue. O dia, enfim, começou. A mancha, agora coagulada, ficará até a próxima chuva.

o sangue nos jornais
não é só
em preto e branco