quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Festa de São João

(2001)

. . . . . . Toninho comia com pressa, não queria se atrasar de jeito nenhum. Tinha esperado a semana toda por este dia. A festa de São João seria o momento em que poderia finalmente conquistar a menina mais linda da escola, pelo menos na sua suspeita opinião. Tinha quinze anos, completos havia poucas semanas. Magro, em sua aparência desengonçada era o típico adolescente que crescera muito em pouco tempo. Suzana, a "menina mais bonita", tinha dezessete anos, e estava no último ano, dois anos a frente dele. Gostava dela havia muito tempo, este gostar contemplativo, de que só somos capazes na adolescência. Gostava de longe. Em seus sonhos, imaginava que ela também gostava dele, sonhava que namoravam, que iam passear, e que ele a salvaria nos momentos de grande perigo. Ela tinha cabelos pretos, lisos, a pele morena, era um pouco mais alta que ele, com o corpo desenvolvido de menina que virou mulher, e um sorriso que o deixava sem fôlego. Não que ele nunca tivesse namorado. Tinha tido duas namoradas, e com uma já tinha chegado tão perto do sexo quanto é possível, sem, contudo, “chegar lá”. Mas nunca tinha sentido reciprocidade, aquela paixão que se sente e se vê também nos olhos do outro. Suzana era muito diferente destas outras garotas. Estava tão apaixonado que imaginava tocá-la como uma forma de profanação. Não que não quisesse, claro que queria! Mas tinha sentimentos conflitantes a respeito. Lembrou da segunda-feira anterior, quando tinha finalmente conseguido juntar coragem e falar com ela. Na verdade, enquanto ele estava pensando como iniciaria uma conversa, ela tinha parado e lhe perguntado as horas. Apesar de nervoso, ele achara um jeito de conversar um pouquinho, e até descobrir que ela iria na festa de São João na sexta-feira seguinte.

. . . . . . A festa tinha começado às quatro da tarde, com apresentações dos alunos do primário, mas a parte que interessava mesmo seria mais tarde, o baile de São João. Já tinha ido à escola, assistido à apresentação de quadrilha da irmã menor e até se divertido com o irmão mais novo, num torneio de brincadeiras típicas. Mas sua expectativa era muito grande, e não conseguia se concentrar direito em nada. Já tinha se arrumado para a festa. Seu cabelo castanho estava lambido e repartido tão reto que parecia riscado à régua. Tinha quase um vidro inteiro de gel no cabelo. Vestia calças de brim, com alguns remendos de mentirinha, camisa xadrez, botinas e trazia um chapéu de palha, que não punha na cabeça para não estragar o cabelo. Desta vez, tinha se recusado a simular um bigode com o lápis de sobrancelhas da mãe.

. . . . . . É claro que ninguém sabia de sua paixão. Nem mesmo seus amigos mais próximos. Suava frio só de imaginar a zombaria que teria que agüentar, caso alguém descobrisse antes de dar certo (tinha certeza que ia dar certo). O fato é que, sob pressão, metade dos seus colegas acabaria admitindo que também sonhava com a tal garota. A outra metade não admitiria, mas também sonhava ou já tinha sonhado. Em casa, só o irmão desconfiava da existência de uma musa inspiradora para os suspiros que Toninho soltava de vez em quando, mas não fazia idéia de quem seria. Agora, a mãe estava sorridente, com uma expressão matreira, imaginando o motivo de tanta preocupação com uma festinha na escola. Nunca tinha visto o filho com tanta preocupação em combinar as roupas, pedindo para passar perfume: "Só um pouquinho, mãe." Principalmente, notava que ele estava ansioso, o que não era comum.

. . . . . . Terminou o lanche em um tempo que lhe garantiria uma medalha nas olimpíadas, se existisse a modalidade. Esperou o "tempo mínimo regulamentar" para não chamar atenção para sua a pressa, e já ia se preparando para sair, quando o pai chegou.

. . . . . . - Oi, Toninho, como foi o seu dia? Tudo bem?

. . . . . . Não estava preparado para estas conversas domésticas. Agora ia demorar mais a sair. Tentou responder rápido, despistar o pai e sair. Não conseguiu.

. . . . . . - Sabe, filho, eu queria conversar um pouquinho com você, não vai demorar nada, e depois eu te levo para a festa, de carro.

. . . . . . Sentiu um frio na barriga. "O que será que fiz?" Quando o pai pedia assim, para conversar com ele, já podia imaginar... Depois pensou que já tinha "planos," e não podia ir com o pai. Tinha até inventado uma desculpa para não ir com os amigos, que iam passar em frente à sua casa. Bom, como não tinha mais jeito de escapar, acatou o convite, pensando que devia ter saído mais cedo. Agora, era tentar abreviar a conversa.

. . . . . . - Olha, meu filho, você já fez quinze anos... - o tom de voz do pai era sério, solene. Toninho ficou ouvindo, calado. Tinha péssimos presságios. - ...já é quase um homem. Eu e sua mãe achamos que já é hora de assumir certas responsabilidades... - Pânico. "Vão me proibir de sair. Não, Deus, tudo menos isto!" o pai prosseguia - então, hoje, trouxe uma coisa para você. Mas, antes, tenho que te pedir uma coisa. Você ainda tem algum daquele dinheiro do lanche que eu dei anteontem?

. . . . . . - Tenho um pouco, sim, pai... - "Que papo estranho..." pensou, "Será que ele pensa que eu ando gastando demais? Mas eu nem gasto muito..."

. . . . . . - Deixa eu ver - o pai estava pensativo - me empresta vinte centavos?

. . . . . . - Claro pai, deixa ver se eu tenho trocado... - Era realmente uma novidade, isso. Nunca tinha acontecido de o pai pedir dinheiro a ele. Menos ainda quando o tinha chamado para "uma conversa".- Olha, pai, só tenho cinqüenta centavos, serve?

. . . . . . - Serve, sim - disse o pai pegando a moeda - Não vai te fazer falta, ?

. . . . . . - Não, pai, eu ainda tenho a metade. - "Pelo menos consegui dizer que não gastei todo o dinheiro, quando começa este papo de 'responsabilidade', é sempre melhor a gente estar numa posição de defesa."

. . . . . . O pai abriu a pasta de trabalho e tirou um pequeno embrulho. Estendeu-o ao filho, que estava visivelmente confuso.

. . . . . . - O que é, pai?

. . . . . . - Porque você não abre e olha? - Tinha agora uma expressão divertida, imaginou que o filho estivesse esperando uma bronca, e ria por dentro, para não estragar a surpresa.

. . . . . . No pacote havia uma caixinha, com um canivete suíço pequeno, preso à corrente de um chaveiro, com duas chaves. Por um momento, Toninho esqueceu toda a pressa.

. . . . . . - É para mim? Que legal! Obrigado, pai! Que legal!! - examinou o chaveiro, abriu o canivetinho, e só então, lembrou de perguntar - mas, que chaves são estas?

. . . . . . - Pois então - disse o pai, sorrindo - são as chaves de casa. Sua mãe e eu achamos que você já é grande o suficiente para ter as chaves de casa.

. . . . . . Ele foi até o pai e o abraçou, orgulhoso de si mesmo.

. . . . . . - A propósito, filho, o canivetinho não é presente, não - disse o pai, mostrando a moedinha com um sorriso - você acaba de comprá-lo de mim por cinqüenta centavos

. . . . . . - Ah, é? Por que, pai?

. . . . . . - Existe uma superstição antiga que diz que nunca se dá instrumentos de corte de presente, sabia? Dizem que "corta a amizade". Por isso eu não dei o canivete, mas vendi. - O pai deu uma risadinha - Não quero correr o risco de cortar a nossa amizade, ?

. . . . . . - Puxa, pai, eu achei que ia levar uma bronca... - a voz meio presa traía a emoção do menino.

. . . . . . O pai riu.

. . . . . . - Algum motivo especial par você levar uma bronca hoje?

. . . . . . - Não, pai! Nenhum! Nenhunzinho mesmo! Mas a gente nunca sabe, ?

. . . . . . Os dois saíram da sala, rindo. O pai falou:

. . . . . . - Bom, meu filho, agora, aquela carona para a escola, acho que você está com pressa...

. . . . . . A confiança veio na hora certa. Antes, talvez não tivesse tido jeito de escapar da carona, com medo de magoar o pai. Mas agora...

. . . . . . - Olha, pai, não precisa. É pertinho. - Antes que o pai insistisse, acrescentou, em voz baixa, com um tom conspirador - E... é que... bom, quero fazer uma coisa antes de chegar à escola, sabe? Tem uma menina... Você entende, , pai?

. . . . . . Ele entendeu. Após beijar a mãe e agradecer o presente, Toninho saiu muito contente, a caminho da festa.

. . . . . . A escola ficava a uns cinco quarteirões. Toninho se desviou um pouco do caminho para passar em frente a uma casa que tinha umas roseiras enormes. Havia tantas rosas naquele jardim, que a calçada em frente à casa cheirava a rosas. O Sol tinha recém se posto. A luz do crepúsculo confundia a vista. Toninho escolheu uma rosa grande, cor-de-rosa mesmo, puxou-a para fora da cerca e começou a torcer a haste para quebrá-la. Enfiou um espinho no dedo, onde saiu uma gotinha de sangue. Era um ramo duro e só quando já estava para desistir ele lembrou do canivetinho novo no bolso. Em um instante estava caminhando pela rua com a rosa numa mão e o indicador da outra na boca.

. . . . . . Ao chegar à escola, um outro problema. "E se alguém me vê com esta flor na mão?" Tentou carregar a flor de modo discreto, casual, e até teve sorte, pois logo avistou Suzana conversando com um sujeito que já tinha visto por ali. Devia ser professor. Ficou observando, da entrada da escola, a timidez não o deixava ir até lá e entregar a rosa assim, na frente de todo mundo. "Melhor esperar e pegá-la quando estiver sozinha." Era um menino sensato. Ela estava linda com os cabelos em duas tranças que lhe desciam dos ombros. Vestia uma camisa xadrez com um nó na cintura, uma calça de brim apertadíssima e botas com salto alto.

. . . . . . A música começou a tocar e o casal foi dançar. Alguns minutos depois, iam saindo quando Suzana viu Toninho.

. . . . . . - Oi, Toninho, tudo legal? Olha, estamos saindo, temos ainda outra festa... Divirta-se, hein?

. . . . . . Deu dois beijinhos nas bochechas dele e se foi antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Ele a viu ainda entrar num carro, trocar um beijo rápido com o professor (agora ele lembrava, era o professor de português do último ano). Logo depois, o carro arrancou.

. . . . . . O menino, a estas alturas, estava arrasado. Tinha os olhos úmidos, e sentia-se absolutamente miserável. Entrou na festa, o olhar fixo à frente, parecia um robô, um robô velho e desanimado. Nem notava as pessoas ao redor. Logo parou e ficou olhando a fogueira no meio do arraial improvisado.

. . . . . . - Oi, Toninho! Ei! acordado? Oi!!

. . . . . . - Ãhn...?? O quê?! Ah, oi, Luciana, tudo legal?

. . . . . . - Tudo.

. . . . . . Se tivesse prestado atenção, Toninho teria notado que ela também não estava muito animada.

. . . . . . Luciana era sua colega de turma. Morava na mesma rua que ele, um quarteirão adiante. Um ano mais moça que ele, ela era sardenta, tinha olhos castanhos e cabelos muito vermelhos. Os colegas costumavam se referir a ela, na sua ausência, naturalmente, como "dentuça-quatro-olhos." Era muito quieta, uma da melhores alunas da classe, o que não contribuía muito para sua popularidade. Estava com um vestidinho rodado, os cabelos presos dos lados da cabeça, em duas marias-chiquinhas.

. . . . . . Após um esforço consciente para "aterrissar", Toninho olhou bem para ela e perguntou:

. . . . . . - , cadê seus óculos? - Não entendia como ela podia estar sem os óculos, nunca a tinha visto assim.

. . . . . . Ela sorriu, mostrando o aparelho ortodôntico, que Toninho também nunca tinha notado.

. . . . . . - Ganhei estas lentes de contato esta semana. Estava usando em casa, até acostumar, resolvi estreá-las na festa. Que tal?

. . . . . . - Legal - disse ele meio desinteressado. Mas depois prestou atenção e, até que ela tinha ficado bonita, assim, sem óculos... Mas não teve coragem de perguntar se o aparelho também era novo. - ficou legal mesmo. Diferente, ?

. . . . . . - Pois é, eu gostei, já estava cansada de ser chamada de "dentuça-quatro-olhos" pelas costas. Eu sei que os meninos... alguns meninos, me chamam assim. Agora, estou usando aparelho também.

. . . . . . Toninho ficou vermelho. Olhou para o chão como se tivesse perdido algo. Pelo menos ficou sabendo que o aparelho era, de fato, outra novidade. Ia falar qualquer coisa para disfarçar, mas não foi preciso.

. . . . . . - É claro que eu sei que você nunca falaria coisas assim. Não um menino que vem para a festa de São João com uma rosa na mão. Para quem é, posso perguntar? - Seu sorriso "metálico" era maroto e simpático.

. . . . . . - Puxa... - "que enrascada!" - é para... quero dizer, na verdade, eu trouxe para a menina que dançasse comigo a primeira dança... - "Impossível, isto nunca vai colar!" pensou.

. . . . . . - Que lindo!! E você já dançou com alguém?

. . . . . . "Colou?! Incrível!!"

. . . . . . - Não... cheguei agora mesmo. Vamos dançar? - "Bom mesmo eu me livrar desta rosa."

. . . . . . Ela fez que sim com a cabeça e foram para o meio do pátio.

. . . . . . Do outro lado do pátio, Toninho viu o Beto, o Juca, e o Cabeça, gesticulando para ele. Acenou para eles com um gesto, rápido, dizendo que iria depois.

. . . . . . Ao fim da dança, ele entregou a rosa para Luciana, e foram tomar um quentão.

. . . . . . Ficaram dançando e conversando até perto das dez horas. Ela insistiu que ele devia ter um "bigode" de caipira. Tanto insistiu até que o convenceu, e ela fez o bigode e umas costeletas nele, com um toquinho de lápis de sobrancelha. Toninho não foi encontrar os amigos. Sabia que ia ter zombaria no dia seguinte, mas não se importava. Aos poucos, foi se distanciando de sua mágoa, enfim nem pensava mais em Suzana, tão animada estavam a festa e a conversa. Descobriu que Luciana, apesar de falar pouco na escola, tinha um conversa bastante divertida. Fazia anos que não falava muito com ela, desde o tempo em que brincavam junto com o resto da molecada da rua. Ela também se surpreendeu quando ele contou a história do canivetinho, e da rosa roubada, que ele, é claro, adaptou para a sua desculpa de trazer uma flor para a primeira dança.

. . . . . . - Mas o dono das roseiras não te viu? Dizem que ele é meio louco...

. . . . . . - Não viu não. Eu fui rápido.

. . . . . . A festa já estava acabando, e Luciana disse que tinha que ir para casa.

. . . . . . - Já está ficando tarde, eu acho que as meninas já foram. - "As meninas" eram as amigas com quem tinha vindo - a gente fica assim, conversando, e esquece da hora...

. . . . . . - Pois é... Acho que eu também já vou. Posso te levar?

. . . . . . - Você veio de bicicleta?

. . . . . . - Não, a pé mesmo.

. . . . . . - Ah, bom... - ela riu - ... Vamos, então?

. . . . . . Caminharam juntos. Em algum momento, descobriram que estavam de mãos dadas, mas nenhum dos dois tocou no assunto, e assim continuaram, até chegar à casa dela. Despediram-se no portão. Três beijinhos, uma despedida rápida, e os dois ficaram se olhando nos olhos, meio sem jeito. Toninho disse, depois de algum tempo:

. . . . . . - Olha, eu estava precisando estudar trigonometria esta semana... Você não quer estudar comigo?

. . . . . . - Pode ser. A gente combina. Obrigada pela rosa. Foi muito legal, a festa. - Ela se aproximou e deu um beijo rápido nos lábios dele. - Boa noite. - Outro beijo, um pouco menos rápido e ela já estava dentro do pátio, quase na porta da casa.

. . . . . . Toninho foi pego de surpresa, e nem teve tempo de reagir, ou de dizer nada. Quando ela parou em frente à porta e se virou para ele, tudo o que ele conseguiu dizer foi:

. . . . . . - Boa noite. Tchau...

. . . . . . Ela entrou e ele começou a caminhar para casa. De repente se viu cantarolando, contente, sem saber bem por quê. Chegou em casa alegre, seus pais se olharam e sorriram. Sim, eles sabiam como era. Quando foi dormir, nem lembrava mais de Suzana. Tinha um canivete suíço, as chaves de casa... e uma namorada.

***

10 comentários:

  1. vou apagar os meus contos todos. :)
    q lindo!!!!!!
    Adorei.
    Parabéns pela simplicidade tão rica.
    Diz-me, o que é brim?
    hoje n levas um bj levas um beijão
    :)
    a.

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  2. Obrigado pelos elogioso. É muito generosa, Ana.

    Brim é um tecido grosso e resistente de algodão, linho etc. É o tecido de que são feitas as "calças jeans". Geralmente é azul, mas há também marrom e em outras cores (muito mais raro).
    Como se chama isto em Portugal?

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  3. um belo conto junvenil!
    parabéns
    beijos

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  4. Muito bons mesmo Rodolfo, não tinha lido este teu blog ainda, orelhudo que sou. Mas uma surpresa ótima que vai me fazer voltar sempre. Abraços, manda bala...

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  5. bom ver teus textos além das gavetas.

    Beijo!

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  6. Lindo demais o conto querido, me imaginei sendo a Suzana, talvés seja até isso, não presto muita atenção aos olhares a minha volta, depois de ter lido o conto, passarei a observar. A vida é assim neh, perdemos muitas coisas por não saber observar as que estão a nossa volta e julgamos desinteressante...

    Obrigada pela indicação do conto...

    Parabéns, fiquei surpreendida como sempre fico ao lê-lo...

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  7. Bah!

    Muito legal Rodolfo!

    Brigadão pela indicação, muito tri o conto!

    E na vida é assim mesmo, as coisas acontecem como tem que acontecer quando menos esperamos...

    Um abraço! Do tamanho do Rio Grande!

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  8. Me senti transportada para perto desse garoto e dessas emoções tão puras e lindas cuja essência não deveríamos perder ao longo dos anos.
    Maravilhoso

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