quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
NO MUNDO
Andando pelas ruas
Qualquer canto era um lar
O teto era azul, cinzento
Ou então cor-de-marquise
piolhos, indiferença,
albergue, surra
fome, violência
sarna, repulsa, cura
Quando as ruas e os dias
os céus e os gramados eram seus
Sempre havia um viralata
Sempre havia um irmão
Familia, tratamentos
Clínica, sabão, água quente
Prozac, Ritalina, unguentos
O teto, sempre a mesma cor
A cama é macia e limpa
E a comida é quente
Mas que saudade da rua!
domingo, 14 de junho de 2009
Citações Inventadas (2)
sábado, 17 de novembro de 2007
medo da chuva
. . . . . Procurou um canto escuro e acomodou-se como pode entre a parede do barraco e uma pilha de caixas de papel. A cada estrondo, encolhia o corpo miúdo contra o canto, como se quisesse entrar na parede. Apertava as mãos contra os ouvidos, mas não conseguia deixar de ouvir. O coração descontrolado e os ruídos da tempestade formavam uma sinfonia de pesadelo. Sabia que ia morrer.
. . . . . Sentiu uma presença trêmula ao lado. Devagar, abriu um olho, depois o outro. Percebeu, mais do que viu, um pequeno vulto peludo apertado contra sua perna. Custou a firmar a vista borrada pelas lágrimas. Pepita também tinha medo. Tocou de leve o pelo molhado da cachorrinha. Ofegando, trêmula aconchegou-se ainda mais contra ele. Chorava baixinho, um ganido fino que mal se ouvia entre os rugidos da tempestade. Lambeu a sua mão e tentou subir no colo dele, depois desistiu e ficou deitada, como que à morte. Chamou-a, baixinho. Ela não se mexeu. Aninhou a cadelinha como pode, no canto forrado com restos de papel e pano.
. . . . . A respiração da cadela ficava cada vez mais pesada. O menino acariciou o pêlo ralo por muito, muito tempo. Enfim, com um longo ganido ela se contorceu um pouco. Logo depois, começou a lamber uma massa escura e gosmenta. Sentiu nojo. A massa escura se mexeu. Curioso, divisou quatro patinhas e um rabo. Depois vieram outras bolinhas peludas, que logo estavam mamando nas tetas da mãe. Nem percebeu quando a tempestade passou. Não tinha mais medo da chuva. Pelo menos até a próxima vez.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
o cão, o cego e o caminho
Um cão segue
seu dono cego
que segue seu cão.
Assim se bastam
cada um a caminhar
e a seguir o outro.
O caminho que surge
a cada passo
sabe ser trilhado.
t a m b é m . é . c a m i n h o
.
