sábado, 17 de novembro de 2007

medo da chuva

(2002)

. . . . . Procurou um canto escuro e acomodou-se como pode entre a parede do barraco e uma pilha de caixas de papel. A cada estrondo, encolhia o corpo miúdo contra o canto, como se quisesse entrar na parede. Apertava as mãos contra os ouvidos, mas não conseguia deixar de ouvir. O coração descontrolado e os ruídos da tempestade formavam uma sinfonia de pesadelo. Sabia que ia morrer.

. . . . . Sentiu uma presença trêmula ao lado. Devagar, abriu um olho, depois o outro. Percebeu, mais do que viu, um pequeno vulto peludo apertado contra sua perna. Custou a firmar a vista borrada pelas lágrimas. Pepita também tinha medo. Tocou de leve o pelo molhado da cachorrinha. Ofegando, trêmula aconchegou-se ainda mais contra ele. Chorava baixinho, um ganido fino que mal se ouvia entre os rugidos da tempestade. Lambeu a sua mão e tentou subir no colo dele, depois desistiu e ficou deitada, como que à morte. Chamou-a, baixinho. Ela não se mexeu. Aninhou a cadelinha como pode, no canto forrado com restos de papel e pano.

. . . . . A respiração da cadela ficava cada vez mais pesada. O menino acariciou o pêlo ralo por muito, muito tempo. Enfim, com um longo ganido ela se contorceu um pouco. Logo depois, começou a lamber uma massa escura e gosmenta. Sentiu nojo. A massa escura se mexeu. Curioso, divisou quatro patinhas e um rabo. Depois vieram outras bolinhas peludas, que logo estavam mamando nas tetas da mãe. Nem percebeu quando a tempestade passou. Não tinha mais medo da chuva. Pelo menos até a próxima vez.


6 comentários:

  1. fez-me lembrar a minha infância. um beijo

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  2. :) senti.............a chuva

    e o milagre.

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  3. belo texto, já conhecia. Estou lhe devendo uma resposta sobre a publicação do conto, bem sei. Dá uma olhada lá no meu blog: Poema para meu avô (antigo).
    Beijos!

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  4. Massa. Durante a tempestqade veio a bonança.

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  5. como já te disse, adorei este conto.
    tal como num bom filme, gosto de planar entrando sem me aperceber.
    resultou.
    bjs
    a.

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  6. Ótimo conto, Rodolfo. Delicado e gentil no trato com as palavras.

    "Percebeu mais do que viu"

    Gosto de sua sensibilidade para captar as coisas, tal como ocorreu com meu poema no Cinco Espinhos.

    Lá mesmo respondi seu comentário.

    Obrigada.

    Abraços!

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