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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

NO MUNDO


Andando pelas ruas
Qualquer canto era um  lar
O teto era azul, cinzento
Ou então cor-de-marquise

piolhos, indiferença,
albergue, surra
fome, violência
sarna, repulsa, cura

Quando as ruas e os dias
os céus e os gramados eram seus
Sempre havia um viralata
Sempre havia um irmão

Familia, tratamentos
Clínica, sabão, água quente
Prozac, Ritalina, unguentos

O teto, sempre a mesma cor
A cama é macia e limpa
E a comida é quente

Mas que saudade da rua!

quinta-feira, 27 de março de 2014

desaforismo 10: A busca do sentido


A busca do sentido é o próprio sentido.

Para evitar a lucidez da loucura, busque uma ilusão, um fanatismo, algo que preencha o vazio dos dias. 

Trabalho, Família, Religião, Política, Diversão, Arte, qualquer coisa serve para tornar mais leve a espera.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Brainstormy-Lines


-Aspirante a escritor, nesta idade? É melhor você se apressar antes que passe de aspirante a inspiração para alguma tragédia ou, pior, alguma comédia bufa escrita por outro.

Finjo que ignoro o cara. Só porque ele fala do outro lado do espelho, acha que pode dizer tudo que pensa? Um dia, ainda o encho de porrada, mas não agora. Nem respondo, porque não gosto de conversar nem de comer enquanto me barbeio. Já me disseram que escritor não tem idade para começar a carreira e que muitos dos grandes começaram tarde.

-Ah, sei... não há idade para se começar a escrever -o desgramado parece que lê pensamentos- mas, já pensou se houver uma idade para se PARAR de escrever? e se você começar a escrever depois da idade em que já devia ter parado? Fico com medo que isto gere um paradoxo, uma dobra no espaço-tempo que possa engolir todo o universo, destruindo tudo que conhecemos e até o que ignoramos...

-Ora, cale-se! digo pro panaca do outro lado do vidro. Lavo o rosto e saio do banheiro, o humor estragado.

De passagem pela cozinha, pego um copo de refresco sabor "Pequi Verde" (é da D-Lite, e eu nem ganho comissão de merchan para escrever isto aqui) e venho pro computador. Escritor tem que ter um copo ou xícara de alguma coisa líquida do lado, faz parte das leis da natureza. E cinzeiros, mesmo que não fume. Como parei de fumar, acendo uns incensos para dar um clima ao escritório e um uso aos cinzeiros. Em meio à fumaça, começo a produzir uma série de "story-lines", sem pensar muito criticamente, bem "brainstorm" mesmo. "Brainstormy-lines". Vamos lá:

1. Anselmo sonha em ser galã de cinema, mas, sendo muito baixo para seu peso e tendo o corpo diminuto em relação à cabeça e esta pequena em relação ao nariz, o ápice de sua carreira foi o papel de pinguim figurante num documentário sobre ursos polares. O papel é cancelado quando o diretor descobre que não há pinguins no ártico e Ancelmu deside entãu tornarce roterista. Para tantu, vai precisar se aufabetisar melór.

2. Nelsoneide sempre desejou ser jogadora profissional de basquete e, para realizar seu sonho, muda-se para Osasco em busca de uma oportunidade no time da financeira Deskobra. Após lutar muito contra o preconceito e a discriminação (querem impedi-la de ser profissional no basquete só porque ela tem 1,47m de estatura média!), acaba desistindo do basquete ao descobrir seu verdadeiro talento: torna-se modelo fotográfico e atriz de comerciais de produtos infantis.

3. Nelsoneide é convidada para trabalhar no filme "Omleth", baseado na peça anônima (que significa "de mesmo nome", explico pro cara do espelho, que não sabe muita coisa) de Guillermo Shakesperm, onde deveria contracenar com Anselmo, que tenta, pela última vez, trabalho como ator. Ele chega a gravar uma cena, no papel de um tucano falante com o qual Omleth trava um duelo verbal, mas a cena é excluída na edição porque a história se passa na Lapônia e não há tucanos no subártico. Assim, Nelsoneide e Anselmo acabam não se conhecendo e perde-se a chance de produzir uma comédia romântica sobre pessoas de baixa estatura média.

4. Niceleide vive em uma cidade pacata. É tudo tão calmo, lá... nada acontece e sua vida não rende nem uma story-line. Decide, então, mudar seu nome para Nelsoneide e se mudar para a cidade grande para tentar a carreira de jogadora profissional de basquete.

Na manhã seguinte, antes de fazer a barba, conto ao cara do espelho sobre as minhas brainstormy-lines.

-Você é doente. Devia procurar ajuda profissional, um psiquiatra, neurologista, terapeuta, os harekrishna, um veterinário, qualquer coisa.

É mais ou menos neste momento que decido deixar a barba crescer.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

anotações para um dicionário improvável (5)

loucura (s.f.) :
  1. Estado de lucidez extrema, em que um indivíduo passa a ser um risco para a sua própria convivência social;
  2. Em termos relativos, tudo aquilo com que um indivíduo auto-denominado como "normal" considera inaceitável no convívio social; paradoxalmente, inclui uma série de atitudes, valores e fatos de foro íntimo (mas sempre alheios);
  3. Justificativa de caráter político-moralista, coberta com um véu de preocupação com a saúde, para se afastarem indivíduos perfeitamente lúcidos do convívio social;
  4. Estado em que se postula que um indivíduo se torna um perigo a si mesmo.
louco (s.m.): Indivíduo portador de loucura. fem.: louca.
obs. alguns loucos se dão bem na política, mas estes são verdadeiramente doentes e perigosos.

louco (adj. m.) fem.: louca:
  1. diz- se de ato relacionado à loucura ou atribuído a esta em suas cauas ou consequências;
  2. interessante, curioso, lúcido iluminador de idéias, causador de insights.
louco manso: diz-se do indivíduo que, sendo excessivamente lúcido para seu próprio bem (ver loucura) não representa perigo senão a si mesmo. Podem serclassificados em dois extremos, a saber: o louco manso melancólico e o louco manso cínico, embora a maioria dos indivíduos nesta condição se encontre em algum ponto entre estes dois extremos e possa transitar, ao longo do tempo, entre eles.

louco manso melancólico é aquele que desistiu de tentar mostrar às outras pessoas a loucura do mundo, e se fecha em sua lucidez, como em um calabouço escuro e triste. Apresentam olhos baços de tristeza e até seu sorriso é triste. É pouco perigoso e o é muito mais para si mesmo do que para a sociedade, podendo até mesmo ser adotado sem perigo por famílias caridosas, para companhia ou pequenos serviços, sem grande perigo. Suas idéias raramente contagiam.

louco manso cínico (ou irônico), é aquele que, após desistir de tentar mostrar a luz aos não-lúcidos, decide usar a luz para o seu próprio bem ou para o bem da humanidade. Olha para o mundo com misericórdia e comiseração, compungido verdadeiramente pela patética condição dos que não vêem o óbvio. Tem a capacidade de, em muitas situações, esconder o próprio sofrimento e solidão com uma capa de humor e socialidade. Sua loucura pode ser contagiosa e pode tornar-se um grande perigo para a sociedade e para si mesmo. Frequentemente são tornados mártires, canonizados ou divinificados, dando então origem a seitas, agremiações e outros movimentos políticos, religiosos, etc. cujos patronos, em vida, seguramente combateriam com fervor. Este paradoxo é a ironia final da loucura cínica.
Seguidores de seitas assim formadas podem obter destaque como sacerdotes, profetas, ou na política (ver obs. em louco, s.m.).