segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Velharias I

.
again and again, and again...

left without words we stand
on the edge of the horizon
watching the sunset
and dreaming of words never spoken.

***

de novo, de novo e de novo...

sem palavras, ficamos
na beira do horizonte
olhando o por-do-sol
e sonhando com palavras nunca ditas.
(29.ago.2000)
***

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

pedrinha n'água

(um quase-poema, interrompido pela razão e seu péssimo hábito de ficar discutindo, questionando, tentando entender tudo, sistematizar, prever, explicar...)


uma pedrinha n'água
produz ondas
concêntricas
centrífugas
perfeitamente circulares

estas ondas se expandem
outras nascem
do centro exato do círculo
o espaço do oceano
parece mesmo ilimitado

quantas ondas cabem no mar?
e quantas pessoas
cabem no mundo?
e o que acontece quando
não cabem mais?

será que um dia
(no final dos tempos?)
todas as ondas
voltando ao centro
devolverão todas as pedras?

será que o tempo tem um final?

Fico pensando que, no final, o tempo pode se rebobinar, como uma fita de vídeo, lentamente (pois o tempo não há de ter pressa) as coisas todas desacontecendo.

E depois, na re-volta, reacontecendo... (da mesma forma??)

uma onda de tempo
indo e vindo
um meta-tempo
tempo além do tempo

De algum lugar uma resposta: "E quem disse que não é agora que as coisas desacontecem? quem disse que as pedrinhas não caíram do mar para cá e agora estão voltando para o lugar de onde vieram?"

Ora, ora... (respondo, com um certo enfado) se estivessem voltando, as ondas correriam PARA DENTRO, para empurrar as pedrinhas de volta! Não correriam para fora, não é?

"Será?"

Mas não é evidente?
(Tento ser didático, às vezes é preciso explicar.)
Para expulsar a pedra, a água teria que empurrá-la, num movimento de fora para dentro, portanto as ondas teriam que mostrar um movimento correspondente, de fora pra dentro, cen-trí-pe-to.

(Na sensação arrogante de triunfo, mal percebo o golpe de misericórdia se aproximando.)

"...e que tipo de onda aparece quando se TIRA uma pedra da água?"

*CLICK*

***

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

tentativa de haicai (2)


entre as nuvens
que regam o jardim
um broto de sol

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

metal na madeira

.
há algo de chumbo
neste entardecer de primavera
que o outono invade


****

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

a onda do nada

..................


....................................a onda
................................do nada
.......................a dona
...................da onda
..........a onda
......domada

.....o nada
sem dono

...........seu nada
.............sem sono
..........................sem onda
............................nem nada
.............................................a onda do nada
.....................................................................não é nada
........................................................................................é só onda

e este nada me ronda


***

domingo, 9 de setembro de 2007

tentativa de haicai (1)

na manhã tranquila

flores sobre o asfalto

ipê amarelo


quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Peso Vivo


a noite cai
sobre estas asas
já pesadas
de crepúsculos

sou homem
não sou pássaro
e tenho medo
do por do sol.
.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

___

aos olhos cansados

de tanto querer ver

lembrança

e esperança

já não bastam

segunda-feira, 28 de maio de 2007

O sangue nos jornais


. As fileiras de barracos são separadas por vielas muito estreitas. Num canto, há um volume coberto com papéis presos por pedras e um sapato. Algumas pessoas começam uma aglomeração que a polícia, em vão, tenta dispersar.


corpo sem nome
o jornal de ontem
cobre a notícia de amanhã

. O vento frio da manhã agita as pontas do papel. Na viatura um soldado ouve mais ou menos atentamente enquanto no rádio, entre soluços e chiados, soam as mensagens da corporação. O outro soldado, em pé ao lado da viatura, parece uma estátua. O tempo parou por um momento: nada se move, nada se ouve. O vento traz de volta o movimento e os sons.

aurora cinzenta
o vento traz
um novo dia

. O cordão de isolamento recém instalado já é pouco para manter as pessoas à distância. Tem-se a impressão de que todos que passam, param por um instante. Dos que ficam, a maioria são mulheres. Algumas trazem bebês no colo, algumas vêm cercadas de crianças de vários tamanhos. Qualquer rajada de vento aumenta a expectativa de que o papel voe e algo se possa ver do que está embaixo.

na manhã fria
a caminho do serviço
a breve atração

. De um lado, o jornal se tinge de sangue, que escorre vários metros viela abaixo. E segue descendo, escuro, viscoso, fazendo desenhos incompreensíveis no chão. Agora já há um círculo bem definido de pessoas ao redor. Por onde o sangue escorre, dá-se passagem. Crianças andam e brincam por toda parte. Algumas, é inevitável, sujam os pés na lama, mistura de sangue com o barro do chão. Ninguém nota ou parece estranhar.

represa rompida
não é para o mar
que este rio corre

. Chegando a perícia, a expectativa cresce. A polícia pede à multidão que se afaste. Um soldado pede às pessoas que levem suas crianças para casa. O círculo recua talvez um metro e pára. Aos poucos vai voltando à posição original, como se houvesse uma pressão, uma mola, que o puxasse. Alguns curiosos mais ousados se aproximam e voltam, numa onda muito lenta de movimento.

nada mais a fazer
senão se distrair
com a tragédia alheia

“... sabe quando a gente joga uma pedra na água e aparecem aquelas ondas, aqueles círculos correndo pra fora?
É como se fosse o contrário: aos poucos, o círculo se fecha...”

será este o assunto
nas mesas, nos bares?
“meninos, eu vi”

. Os policiais afastam um pouco a multidão, a cada vez que a roda se fecha. O corpo é descoberto: está numa posição estranha, não parece natural. Era jovem, tinha o cabelo muito curto, bermudas, camiseta, chinelos “de dedo”. O rosto está apoiado no chão, o boné ao lado. Foram vários tiros, três na cabeça. Alguns dos presentes o conhecem: “morava logo ali embaixo”, mas ninguém ouviu nada.

para sobreviver
é preciso aprender
a não saber nada

. O corpo é despido, virado, examinado, recolhido. A multidão fascinada assiste a tudo. O rabecão leva o cadáver. A multidão se dispersa. A perícia e os policiais militares também se vão. Sobram, no chão, alguns papéis sobre a mancha de sangue. O dia, enfim, começou. A mancha, agora coagulada, ficará até a próxima chuva.

o sangue nos jornais
não é só
em preto e branco



sábado, 2 de setembro de 2006

Faxina diária


...dia após dia
passado a limpo
o ontem reluz e brilha.

subjuntivos

todo dia são trocados
futuro por presente
presente por passado

o futuro do pretérito
cada vez mais mais distante
passou aqui por perto

o improvável agora
sempre passado a limpo
já perdeu a memória


quinta-feira, 11 de maio de 2006

___

sinto tanto

saber mais que sentir

e saber tão pouco



sábado, 31 de dezembro de 2005

Neo Lítico


Passeando por Ouro Preto, o menino e o pai:
- Cidade antiga, né?
O pai faz que sim com a cabeça e aponta a câmera fotográfica para uma igreja.
- Pois é, segue o menino, a gente logo vê que são ruas de antigamente.
Click!
Lentamente, o pai abaixa a câmera e olha para o filho.
- Sim, são construções antigas, a arquitetura barroca...
- Não, pai! As ruas!
- Estreitas. - Volta a apontar a câmera, agora para outro lado, uma panorâmica.
- Não, lisinhas. Não se fazem mais ruas lisinhas como antigamente. As pedras lisas devem ter acabado, ou então a tecnologia de alisar ruas se perdeu...
Click!
**