quarta-feira, 26 de setembro de 2007

a onda do nada

..................


....................................a onda
................................do nada
.......................a dona
...................da onda
..........a onda
......domada

.....o nada
sem dono

...........seu nada
.............sem sono
..........................sem onda
............................nem nada
.............................................a onda do nada
.....................................................................não é nada
........................................................................................é só onda

e este nada me ronda


***

domingo, 9 de setembro de 2007

tentativa de haicai (1)

na manhã tranquila

flores sobre o asfalto

ipê amarelo


quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Peso Vivo


a noite cai
sobre estas asas
já pesadas
de crepúsculos

sou homem
não sou pássaro
e tenho medo
do por do sol.
.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

___

aos olhos cansados

de tanto querer ver

lembrança

e esperança

já não bastam

segunda-feira, 28 de maio de 2007

O sangue nos jornais


. As fileiras de barracos são separadas por vielas muito estreitas. Num canto, há um volume coberto com papéis presos por pedras e um sapato. Algumas pessoas começam uma aglomeração que a polícia, em vão, tenta dispersar.


corpo sem nome
o jornal de ontem
cobre a notícia de amanhã

. O vento frio da manhã agita as pontas do papel. Na viatura um soldado ouve mais ou menos atentamente enquanto no rádio, entre soluços e chiados, soam as mensagens da corporação. O outro soldado, em pé ao lado da viatura, parece uma estátua. O tempo parou por um momento: nada se move, nada se ouve. O vento traz de volta o movimento e os sons.

aurora cinzenta
o vento traz
um novo dia

. O cordão de isolamento recém instalado já é pouco para manter as pessoas à distância. Tem-se a impressão de que todos que passam, param por um instante. Dos que ficam, a maioria são mulheres. Algumas trazem bebês no colo, algumas vêm cercadas de crianças de vários tamanhos. Qualquer rajada de vento aumenta a expectativa de que o papel voe e algo se possa ver do que está embaixo.

na manhã fria
a caminho do serviço
a breve atração

. De um lado, o jornal se tinge de sangue, que escorre vários metros viela abaixo. E segue descendo, escuro, viscoso, fazendo desenhos incompreensíveis no chão. Agora já há um círculo bem definido de pessoas ao redor. Por onde o sangue escorre, dá-se passagem. Crianças andam e brincam por toda parte. Algumas, é inevitável, sujam os pés na lama, mistura de sangue com o barro do chão. Ninguém nota ou parece estranhar.

represa rompida
não é para o mar
que este rio corre

. Chegando a perícia, a expectativa cresce. A polícia pede à multidão que se afaste. Um soldado pede às pessoas que levem suas crianças para casa. O círculo recua talvez um metro e pára. Aos poucos vai voltando à posição original, como se houvesse uma pressão, uma mola, que o puxasse. Alguns curiosos mais ousados se aproximam e voltam, numa onda muito lenta de movimento.

nada mais a fazer
senão se distrair
com a tragédia alheia

“... sabe quando a gente joga uma pedra na água e aparecem aquelas ondas, aqueles círculos correndo pra fora?
É como se fosse o contrário: aos poucos, o círculo se fecha...”

será este o assunto
nas mesas, nos bares?
“meninos, eu vi”

. Os policiais afastam um pouco a multidão, a cada vez que a roda se fecha. O corpo é descoberto: está numa posição estranha, não parece natural. Era jovem, tinha o cabelo muito curto, bermudas, camiseta, chinelos “de dedo”. O rosto está apoiado no chão, o boné ao lado. Foram vários tiros, três na cabeça. Alguns dos presentes o conhecem: “morava logo ali embaixo”, mas ninguém ouviu nada.

para sobreviver
é preciso aprender
a não saber nada

. O corpo é despido, virado, examinado, recolhido. A multidão fascinada assiste a tudo. O rabecão leva o cadáver. A multidão se dispersa. A perícia e os policiais militares também se vão. Sobram, no chão, alguns papéis sobre a mancha de sangue. O dia, enfim, começou. A mancha, agora coagulada, ficará até a próxima chuva.

o sangue nos jornais
não é só
em preto e branco



sábado, 2 de setembro de 2006

Faxina diária


...dia após dia
passado a limpo
o ontem reluz e brilha.

subjuntivos

todo dia são trocados
futuro por presente
presente por passado

o futuro do pretérito
cada vez mais mais distante
passou aqui por perto

o improvável agora
sempre passado a limpo
já perdeu a memória


quinta-feira, 11 de maio de 2006

___

sinto tanto

saber mais que sentir

e saber tão pouco



sábado, 31 de dezembro de 2005

Neo Lítico


Passeando por Ouro Preto, o menino e o pai:
- Cidade antiga, né?
O pai faz que sim com a cabeça e aponta a câmera fotográfica para uma igreja.
- Pois é, segue o menino, a gente logo vê que são ruas de antigamente.
Click!
Lentamente, o pai abaixa a câmera e olha para o filho.
- Sim, são construções antigas, a arquitetura barroca...
- Não, pai! As ruas!
- Estreitas. - Volta a apontar a câmera, agora para outro lado, uma panorâmica.
- Não, lisinhas. Não se fazem mais ruas lisinhas como antigamente. As pedras lisas devem ter acabado, ou então a tecnologia de alisar ruas se perdeu...
Click!
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